Do poste ao algoritmo: como dados e automação devem mudar a distribuição de energia no Amazonas

Técnico inspeciona equipamentos de distribuição de energia de uma rede inteligente

A rede elétrica do Amazonas deve ganhar, nos próximos anos, uma camada que vai além de fios e transformadores: a de dados. O plano de modernização da Âmbar Energia combina obras de recuperação com digitalização, monitoramento, medidores inteligentes e subestações modernizadas, aproximando o Estado do modelo de Energia 4.0.

Nesse modelo, conectividade, automação e análise de informações ocupam o centro da operação. A rede continua transportando eletricidade, mas também passa a registrar e transmitir dados sobre o próprio funcionamento.

O avanço não torna dispensável a estrutura tradicional. Postes, cabos, transformadores e subestações precisam estar em boas condições para que qualquer sistema digital funcione. Por isso, o programa trata as duas frentes em conjunto.

Os números do plano: R$ 5,5 bilhões até 2031, sendo R$ 3,9 bilhões de recursos da Âmbar e o restante de fontes federais, como o programa Luz para Todos e projetos de interligação.

Entre as ações estão a substituição de cabos antigos por cabos concêntricos revestidos, a expansão e revitalização de circuitos, a construção e ampliação de subestações e a implantação de sistemas de monitoramento. A intenção é que cada circuito, além de reforçado, possa ser acompanhado: como opera, onde está sob pressão e quando um equipamento pede manutenção.

A mudança é perceptível no atendimento a falhas. Em redes convencionais, a distribuidora muitas vezes depende da reclamação do consumidor para saber de um problema. Em redes digitais, sensores sinalizam alterações de tensão, sobrecarga ou interrupções e aceleram a localização do defeito.

Os medidores inteligentes ampliam esse alcance. Com mais dados sobre consumo e comportamento da rede, a concessionária pode identificar mudanças de carga, acompanhar padrões, encontrar anomalias e planejar melhor. Para o consumidor, abre-se a possibilidade de informações mais completas sobre o próprio consumo.

Há ainda o desafio das perdas não técnicas, que é a energia usada e não faturada por ligações clandestinas, fraudes ou problemas de medição. A estimativa de empresários é de que cerca de 44% da energia injetada hoje não seja faturada. A Âmbar aposta na combinação entre medição moderna, infraestrutura renovada e regularização para reverter o quadro.

Antecipar gargalos também faz parte da lógica. Em Manacapuru, a empresa instalou uma termelétrica de 5 MW para dar conta do horário de maior demanda. A medida pode se somar a investimentos permanentes em rede, subestações e monitoramento, permitindo planejar a infraestrutura conforme o consumo cresce.

No interior, a realidade ainda pede o trabalho de sempre. Em Humaitá, estão em curso a troca de postes e cruzetas, o reforço de 34 quilômetros de rede e a limpeza da vegetação próxima à fiação, intervenções fundamentais para a qualidade do fornecimento.

Num território de grandes distâncias, dados precisos podem orientar equipes diretamente ao ponto da falha e indicar onde investir. A Energia 4.0 no Amazonas, portanto, é menos sobre equipamentos conectados e mais sobre transformar a distribuição em uma operação monitorada e guiada por informação, sem abandonar a reconstrução da rede física.

As etapas da energia, em resumo

Energia 1.0 | Eletrificação
Gerar eletricidade e montar redes para entregá-la aos consumidores era o desafio principal.

Energia 2.0 | Expansão e escala
Usinas de grande porte, transmissão e distribuição ampliam a capacidade e o acesso.

Energia 3.0 | Automação
A operação incorpora informática, telecomunicações, controle remoto e sistemas automatizados.

Energia 4.0 | Inteligência e conectividade
Sensores, medidores inteligentes, internet das coisas, análise de dados, inteligência artificial e redes inteligentes permitem acompanhar o sistema com muito mais informação.